sexta-feira, junho 29, 2007

el páro


Trajecto entre Arequipa e Cusco, no Peru. Com os ossos a ranger por não encontrar boa posição no banco do autocarro e o frio da altitude a atravessar-me a carne, sinto a marcha parar. Os ponteiros marcam cinco horas da manhã e é cedo para a viagem nos colocar no sítio prometido. O motor desliga-se e as pessoas abanam-se nos bancos, porque apesar dos olhos fechados o sono era leve. Paragem para o wc? Não. A coisa era mais séria. Os agricultores de Sicuani, uma pequena aldeia das montanhas verdes e vertiginosas daquele país fantástico, aborreceram-se com a falta de pagamento de subsídios por parte do governo e decidiram fazer justiça com as próprias pedras. Colocaram-nas na estrada em dois sítios e cortaram o acesso a trabalhadores e turistas que por ali passavam. Cusco estava a uma distância de quilómetros suficientes para nos complicar os planos e, como não havia maneira de desbloquear a estrada, até porque a polícia local parecia estar combinada com os agricultores, resolvemos pegar nas mochilas e atravessar os protestos a pé. Perante os olhares desaprovadores, lá conseguimos embrenhar-nos na aldeia e arranjar um táxi que nos serpenteou até ao segundo ponto do bloqueio, chegando à conclusão que o melhor seria voltar para trás e esperar pelo fim dos protestos. A ideia foi reprovada pelos sicuanis, que não gostaram de nos ver outra vez, impedindo-nos de voltar ao autocarro. Mas lá conseguimos, sem evitar uns empurrões e gargalhadas de gozo. Outros decidiram furar o bloqueio e desapareceram para sempre na paisagem. Já depois do meio-dia o protesto foi levantado e a chegada a Cusco aconteceu pelas 17 horas (24 horas depois de Arequipa...), com os ossos moídos e os músculos cansados. Tempo para um pequeno-almoço divinal.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

É a América do Sul no seu mais puro estilo, que inveja! Bons testemunhos: o fotográfico, e o melhor texto...

10:45 p.m.  
Blogger ritmosfortes said...

obg pelo comentário senhor anónimo!

2:08 a.m.  

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